Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
Em Fevereiro de 2006 a Ofensiva 1906 publicou neste espaço a opinião de Pedro Valido, advogado, que faz parte do Compromisso: Portugal. Dois anos volvidos e face à conjectura actual do Sporting C. P. a pertinência do que foi então exposto mantém-se. Leia ou releia:
"1. Num país onde a memória é geralmente curta, vale a pena recordar um pouco a lógica que levou o Sporting a endividar-se brutalmente para a construção do novo estádio: o equipamento anterior (que não velho, assinale-se) não possuía valências que lhe permitissem gerar receitas para o clube.Era um “elefante branco”, dizia-se, que só tinha movimento de 15 em 15 dias. O novo complexo permitiria, através de várias estruturas comerciais, outro nível de receitas que poderiam sustentar outro tipo de investimento nas áreas desportivas, maxime o futebol profissional.
O advento do Euro e a miragem de participações públicas várias – directas e indirectas – fechou o círculo virtuoso das boas razões.Resultado: venderam-se os terrenos que o clube tinha na zona do antigo estádio e o património do Sporting passou a ser, em exclusivo, o estádio e os edifícios circundantes que compõem a sua estrutura (tirando o centro de estágio, que merecerá outro parágrafo).
É pois com grande espanto que se assiste agora ao anúncio do novo objectivo da actual direcção do clube: vender tudo o que não é estádio e centro de estágio. Estaremos a falar, portanto, do edifício sede, da estrutura Alvaláxia e do ‘health club’. Tudo aquilo, portanto, que era suposto gerar novas receitas capazes de colocar o Sporting a ombrear com os grandes clubes europeus. Pretexto: o serviço da dívida bancária está a estrangular o clube.
Resultado: o Sporting voltará ao que tinha antes – um estádio que produz rendimento de 15 em 15 dias, com a agravante de já não ter os valiosos terrenos contíguos à zona do estádio e de manter, mesmo após essas pretendidas vendas, um passivo monstruoso.
O que falhou? O 11 de Setembro, como defende caricatamente o nóvel presidente, ou afinal tudo não passou de um conjunto de operações imobiliárias: venderam-se os terrenos e construiu-se o estádio, uma magnífica e apelativa empreitada de mais de 100 milhões de euros, cuja gestão os drs. José Roquete e Dias da Cunha entregaram nas experientes mãos do dr. Godinho Lopes. Curiosamente, feito o serviço, o dr. Godinho Lopes desapareceu miraculosamente do circuito e neste momento não é visível em nada: orgãos sociais, administrações de empresas do grupo Sporting ou, sequer, na concorrida comissão do centenário.
2. Mas o chamado projecto Roquete também trouxe coisas boas. Por um lado, a academia, numa aposta na continuação do Sporting como grande clube formador do futebol português e uma das referências de formação na Europa. A única coisa que nunca se chegou a perceber foi a razão pela qual o terreno onde a academia foi construída teve de ser adquirido pelo clube, quando era público que existiam na altura pelo menos duas autarquias (Torres Vedras e Loures) que disponibilizavam gratuitamente terrenos para esse efeito. E os bons jogadores que a formação continua a produzir, na esteira dos futres e figos do passado, renderam nos últimos anos muitas dezenas de milhões de euros aos cofres do clube, mas que infelizmente foram alegremente dissipados no enorme défice de exploração do grupo Sporting.
Outro aspecto positivo foi o modelo de SAD que foi implementado, onde o clube detém uma maioria confortável. Ora segundo o actual presidente – e pelos vistos candidato contra a sua própria palavra – o objectivo agora é reduzir a participação do clube na SAD de modo a permitir a captação de investidores.
Segundo as suas declarações, a participação do clube deveria ser reduzida a 51% “numa primeira fase”. O que quer dizer, obviamente, que numa segunda fase passaria a minoritário. Preto no branco, tal significa que o Sporting – ou seja, os sócios – deixarão de mandar no futebol do clube. Isto a troco de tornar o clube mais atractivo para potenciais investidores.
E quem serão esses investidores que irão mandar no futebol do clube? Naturalmente que, numa primeira fase, gente escolhida pela direcção do clube; mas, depois, esses um dia venderão a quem lhes pagar mais e daí em diante tudo pode acontecer. Até uma falência, se surgir um novo episódio Jorge Gonçalves, por exemplo. Olhe-se para o Estoril, onde uma dupla aparentemente credível – Manuel Damásio/José Veiga – deu no que deu.
3. Se é verdade que o Sporting precisa de empresários e, em geral, de pessoas com capacidade e valor, não é menos verdade que isso só por si não chega. Fazem falta desportistas, no sentido literal da palavra, de pessoas que gostem e se dediquem ao desporto e que encarem uma experiência na direcção de um clube como um acto de sacerdócio por uma causa bonita e que vale a pena."
"1. Num país onde a memória é geralmente curta, vale a pena recordar um pouco a lógica que levou o Sporting a endividar-se brutalmente para a construção do novo estádio: o equipamento anterior (que não velho, assinale-se) não possuía valências que lhe permitissem gerar receitas para o clube.Era um “elefante branco”, dizia-se, que só tinha movimento de 15 em 15 dias. O novo complexo permitiria, através de várias estruturas comerciais, outro nível de receitas que poderiam sustentar outro tipo de investimento nas áreas desportivas, maxime o futebol profissional.
O advento do Euro e a miragem de participações públicas várias – directas e indirectas – fechou o círculo virtuoso das boas razões.Resultado: venderam-se os terrenos que o clube tinha na zona do antigo estádio e o património do Sporting passou a ser, em exclusivo, o estádio e os edifícios circundantes que compõem a sua estrutura (tirando o centro de estágio, que merecerá outro parágrafo).
É pois com grande espanto que se assiste agora ao anúncio do novo objectivo da actual direcção do clube: vender tudo o que não é estádio e centro de estágio. Estaremos a falar, portanto, do edifício sede, da estrutura Alvaláxia e do ‘health club’. Tudo aquilo, portanto, que era suposto gerar novas receitas capazes de colocar o Sporting a ombrear com os grandes clubes europeus. Pretexto: o serviço da dívida bancária está a estrangular o clube.
Resultado: o Sporting voltará ao que tinha antes – um estádio que produz rendimento de 15 em 15 dias, com a agravante de já não ter os valiosos terrenos contíguos à zona do estádio e de manter, mesmo após essas pretendidas vendas, um passivo monstruoso.
O que falhou? O 11 de Setembro, como defende caricatamente o nóvel presidente, ou afinal tudo não passou de um conjunto de operações imobiliárias: venderam-se os terrenos e construiu-se o estádio, uma magnífica e apelativa empreitada de mais de 100 milhões de euros, cuja gestão os drs. José Roquete e Dias da Cunha entregaram nas experientes mãos do dr. Godinho Lopes. Curiosamente, feito o serviço, o dr. Godinho Lopes desapareceu miraculosamente do circuito e neste momento não é visível em nada: orgãos sociais, administrações de empresas do grupo Sporting ou, sequer, na concorrida comissão do centenário.
2. Mas o chamado projecto Roquete também trouxe coisas boas. Por um lado, a academia, numa aposta na continuação do Sporting como grande clube formador do futebol português e uma das referências de formação na Europa. A única coisa que nunca se chegou a perceber foi a razão pela qual o terreno onde a academia foi construída teve de ser adquirido pelo clube, quando era público que existiam na altura pelo menos duas autarquias (Torres Vedras e Loures) que disponibilizavam gratuitamente terrenos para esse efeito. E os bons jogadores que a formação continua a produzir, na esteira dos futres e figos do passado, renderam nos últimos anos muitas dezenas de milhões de euros aos cofres do clube, mas que infelizmente foram alegremente dissipados no enorme défice de exploração do grupo Sporting.
Outro aspecto positivo foi o modelo de SAD que foi implementado, onde o clube detém uma maioria confortável. Ora segundo o actual presidente – e pelos vistos candidato contra a sua própria palavra – o objectivo agora é reduzir a participação do clube na SAD de modo a permitir a captação de investidores.
Segundo as suas declarações, a participação do clube deveria ser reduzida a 51% “numa primeira fase”. O que quer dizer, obviamente, que numa segunda fase passaria a minoritário. Preto no branco, tal significa que o Sporting – ou seja, os sócios – deixarão de mandar no futebol do clube. Isto a troco de tornar o clube mais atractivo para potenciais investidores.
E quem serão esses investidores que irão mandar no futebol do clube? Naturalmente que, numa primeira fase, gente escolhida pela direcção do clube; mas, depois, esses um dia venderão a quem lhes pagar mais e daí em diante tudo pode acontecer. Até uma falência, se surgir um novo episódio Jorge Gonçalves, por exemplo. Olhe-se para o Estoril, onde uma dupla aparentemente credível – Manuel Damásio/José Veiga – deu no que deu.
3. Se é verdade que o Sporting precisa de empresários e, em geral, de pessoas com capacidade e valor, não é menos verdade que isso só por si não chega. Fazem falta desportistas, no sentido literal da palavra, de pessoas que gostem e se dediquem ao desporto e que encarem uma experiência na direcção de um clube como um acto de sacerdócio por uma causa bonita e que vale a pena."
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